Banner 468 x 60px

 

20 de outubro de 2016

Uma Amazônia Desconhecida - Entrevista com Eduardo Neves

0 comentários
Imagine entrar em um avião em São Paulo, rumo à região Norte do Brasil. O voo, estimado em 5 horas, atravessa os Estado de São Paulo, de Minas Gerais e cruza a capital federal, em aproximadamente 2 horas. Daí pra frente, após o Estado do Tocantins, do alto da aeronave você começa a enxergar o início de um grande e interminável tapete verde. Uma imensa e indecifrável cobertura vegetal se abre e se estenderá abaixo dos seus pés, por longas 3 horas de voo. No meio deste tapete, rasgos. Muitos rasgos e recortes na mata densa, além de inúmeras colunas, finas ou grossas, de fumaça. Ora um tom acinzentado cobre o horizonte, ora esse tom se dissipa e a selva está ali, gigante e formosa. Debaixo deste tapete está escondida e enterrada muita história, muitos enigmas e pistas sobre o passado da região amazônica e do Brasil. Um território vasto, infinito e misterioso se apresenta aos passageiros antes da aterrissagem na cidade de Manaus, capital do Estado amazonense.
20-os-estados-brasileiros-que-compoem-a-amazonia-legal
20-os-estados-brasileiros-que-compoem-a-amazonia-legal
  • A Amazônia Legal, conceito criado em 1966, atualmente inclui: Amazonas, Acre, Pará, Amapá, Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Maranhão, Goiás e Tocantins.
  • A região da Bacia Amazônica é compreendida pela grande bacia do Rio Amazonas, a maior bacia hidrográfica do planeta. São 25 mil quilômetros de rios navegáveis, e abrange seis países: Brasil, Peru, Bolívia, Equador, Colômbia e Venezuela.
  • De acordo com o último censo demográfico, a região tem mais de 25 milhões de moradores,
e abriga aproximadamente 13% da população brasileira (estimativa do IBGE 2010).
  • A Amazônia Legal tem 5 milhões de quilômetros quadrados e abrange 59% do território brasileiro, distribuída por 775 municípios.
  • A Amazônia Legal representa 67% das florestas tropicais do mundo.
  • Se fosse um país, a Amazônia Legal seria o 6.º maior do mundo em extensão territorial.
  • Um terço das árvores do mundo estão na região, além de 20% das águas doces.
Quem lê ou ouve esta descrição, além de outras definições criadas pelo imaginário coletivo, sobre o que de fato é a grande Floresta Amazônica, costuma se deparar com a ideia e a hipótese que a considera uma área inóspita, e que sempre foi escassamente povoada. Uma área virgem, selvagem e intocada antes do Brasil ser descoberto, e que começou a ser destruída e modificada pela ação do homem e dos colonizadores que descobriram e conquistaram o Brasil em 1500. Ou ainda, por outro lado, surge uma outra possibilidade: seria a Amazônia berço de antigas civilizações?
Se ambas as expressões soam estranhas aos seus ouvidos, é porque as descobertas recentes sobre o passado da maior floresta tropical do mundo ainda não tinham sido reunidas num conjunto completo e coerente. A ocupação humana da região, na verdade, tem milhares de anos. As populações que ali viveram deixaram inúmeros testemunhos materiais de sua história, modificando inclusive o meio ambiente e essas teorias e estudos vêm já há algum tempo ganhando outros rumos, outros contornos e estabelecendo novas verdades.
Quem pode nos contar muito melhor essa história é Eduardo Góes Neves, professor titular de Arqueologia Brasileira e membro do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Ele é um dos principais responsáveis por colocar a Amazônia no mapa da arqueologia mundial. Eduardo é considerado um dos maiores arqueólogos do Brasil e do mundo, e é um antigo morador da Granja Viana, e vem com um grupo de pesquisadores brasileiros e de outras nacionalidades, estudando a região há mais de 25 anos.
Uma das conclusões dessa vida dedicada à arqueologia é: antes de Pedro Alvares Cabral por aqui desembarcar, a região amazônica já estava fortemente “domesticada” e não intocada, como muita gente ainda acredita.
12a
Eduardo atualmente encontra-se em Boston, lecionando na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, como Professor Visitante do Dep. de Antropologia e do Rockefeller Center, ministrando um curso sobre o passado da Amazônia e o futuro das florestas tropicais, e gentilmente atendeu e respondeu algumas perguntas à Revista Circuito, sobre seus temas de estudo e de trabalho, relacionados à arqueologia na Amazônia, como você pode conferir abaixo:
13-b-eduardo-e-seus-irmaos-caio-adriana-e-patricia

13-b-eduardo-e-seus-irmaos-caio-adriana-e-patricia1. Você morou boa parte da sua vida na Granja Viana. Conte um pouco sobre essa fase e o seu despertar para a Arqueologia. 
Eu nasci em São Paulo, mas me lembro, ainda criança, de um terreno que meu pai tinha comprado no meio do mato, em Cotia. Lembro-me também de visitar as obras da construção da casa, que é o lugar onde eles vivem até hoje. A casa ficou pronta em 1974 e nos mudamos em 1976, há 40 anos. Tudo mudou muito, obviamente. Eu moro há muitos anos em SP, mas volto sempre à Granja pra ver meus pais, irmãs, tios e primos que moram aí. Meu Título de Eleitor era em Cotia até poucos anos atrás. Eu gostava muito de andar pelo mato quando era criança, e ter crescido na Granja me proporcionou isso. Vivemos alguns anos sem telefone, a luz acabava sempre. Naquela época a sensação era que estávamos longe mesmo da cidade, e a vida aí tinha um certo sabor de aventura. Acho que isso me preparou um pouco para ser arqueólogo.
2. Qual o tamanho do desafio de ministrar um curso em uma das melhores Universidades do mundo, fora do seu país e numa outra língua?
Eu ganhei uma bolsa do Ministério da Educação do Brasil e do Rockefeller Center aqui de Harvard. Está sendo uma experiência muito rica, sem dúvida. Os alunos aqui são ótimos e interessados, mas os alunos brasileiros também são. Dou aula na USP e já dei aulas no Amazonas, Acre, Rondônia e Pará, e uma das minhas surpresas mais gratas foi verificar como tem melhorado em geral o nível dos alunos no Brasil. Eu fiz meu doutorado nos EUA, com bolsa do CNPq, então a língua não é um problema. As pessoas aqui têm muito interesse na Amazônia, às vezes mais que no próprio Brasil e, por isso, estou sendo muito bem recebido.
3. Como foi o seu primeiro contato e a sua primeira participação em uma pesquisa de campo na Amazônia? Quais as lembranças e as impressões deste primeiro trabalho?
A primeira vez que eu viajei à Amazônia eu ainda morava na Granja, em 1985. Peguei um ônibus e viajei dois dias até Belém, e de lá fui para a ilha de Marajó e depois para o Maranhão, que também faz parte da Amazônia. Foi uma viagem maravilhosa que me fez querer voltar. Em 1986 participei de um projeto de campo no rio Xingu, perto da cidade de Altamira, no Pará, e desde então nunca mais parei. Além do Pará, trabalhei no Amapá e por muitos anos no Amazonas. Atualmente minhas pesquisas são no Acre e em Rondônia.
4. Algum momento perigoso marcou essa sua trajetória na floresta?
No ano 2000 levei uma picada de cobra, que me deixou alguns dias no hospital e alguns meses de muleta. Já tive malária, dengue e outras doenças. Vi um querido amigo tomar um tiro e morrer ao meu lado. Qualquer uma dessas coisas, no entanto, poderia ter acontecido aqui em São Paulo, com exceção da malária.
5. Voltando a falar sobre o seu trabalho. Em termos de populações humanas, qual era o cenário na Amazônia antes da chegada dos europeus? (+ FOTO 21)
A arqueologia mostra hoje que a Amazônia era densamente ocupada antes do início da colonização europeia, ao contrário do que muita gente pensa. Isso é válido para outras áreas do Brasil também. O que passa é que em muitos locais a matéria-prima para construção era o solo, ao contrário de outros locais onde a rocha era utilizada. Os grupos que aqui viviam sucumbiram rapidamente às doenças trazidas do velho mundo pelos europeus, tais como varíola, sarampo, catapora etc. Quando os primeiros cientistas começaram a viajar pelo interior do país, alguns séculos depois encontraram regiões desabitadas, mas que eram densamente ocupadas antes.
6. Em quantas pessoas vocês calculam a população da Amazônia pré-cabraliana?
Ninguém sabe direito, mas trabalhamos com a hipótese de que 8 milhões de pessoas viviam na Amazônia antes de 1500.
7. Quais as interferências destas populações na biodiversidade da floresta? (+ FOTO 2)
Foram muitas. Plantas como o açaí ou a castanha-do-pará, que para nós são para “beliscar” eram importantíssimas. O chocolate era uma planta da Amazônia que foi levada até o México antes da conquista. Mandioca também. Abacaxi, guaraná e vários tipos de pimentas. Isso sem falar em inúmeras plantas não alimentícias, como a seringueira, que produz a borracha.
8. Quais espécies de plantas selvagens foram transformadas em cultivos agrícolas pelos povos nativos da Amazônia?
Talvez o caso mais interessante seja o da mandioca, que foi domesticada na Amazônia há mais de 7 mil anos, e hoje é cultivada e consumida em todo o mundo.
2a
2a9. Em que consiste o trabalho arqueológico na Bacia Amazônica?
Há dois tipos de pesquisa, que têm muito em comum, mas também diferenças: a acadêmica, realizada no âmbito de universidades e institutos de pesquisa; e a de contrato, ligada aos processos de licenciamento ambiental. Ambas estão voltadas para o entendimento do passado e podem gerar conhecimentos importantes, mas funcionam de maneira diferente
10. Quais os principais resultados das pesquisas de campo?
Há inúmeros resultados interessantes que surgiram nos últimos anos por toda a Amazônia. No Acre, por exemplo, centenas de estruturas geométricas de terra, conhecidas como “geoglifos”, vêm sendo identificadas nos últimos anos, algumas com mais de 3 mil anos. No Amapá encontraram-se estruturas de pedra posicionadas de acordo com a posição do sol em alguns dias específicos do ano, numa espécie de observatório. No Pará e no Amazonas há evidências de sítios de grandes dimensões, alguns deles, como o que está localizado sob a cidade de Santarém, equivalendo a possivelmente uma cidade pré-colombiana. Em Rondônia temos dados mostrando que o milho, uma planta com origem no México, já era cultivado há mais de 6 mil anos. Tem muita coisa interessante acontecendo. É um campo extraordinário de pesquisas.
6
11. O principal material de pesquisa dos arqueólogos é a chamada “terra preta de índio”. Por favor, fale um pouco mais sobre isso? 
Na verdade trabalhamos com diferentes tipos de materiais, como objetos e fragmentos de cerâmica e pedra, restos de plantas e animais, e também de solo. A terra preta é um tipo de solo que foi formado no passado pelos índios e que é muito fértil. Tão fértil que os atuais agricultores o procuram para cultivas. A pesquisa neste caso está voltada para entender quais foram os processos responsáveis pela sua formação, que começou a ocorrer há pelo menos 2.500 anos atrás.
12. As recentes obras de usinas hidrelétricas na bacia do rio Amazonas podem impactar os sítios arqueológicos? É possível mensurar essas perdas? Quais os reais impactos pra região?
A legislação brasileira exige que estudos arqueológicos preliminares sejam realizados antes da construção de obras de impacto, tais como usinas, rodovias, gasodutos etc. Tais demandas geraram um aumento importante de pesquisas arqueológicas na Amazônia, o que é muito bom. Por outro lado, as dimensões e o desconhecimento prévio sobre a arqueologia da região colocam um limite sobre a capacidade de aprendermos tanto em tão pouco tempo. Arqueologia demanda tempo para a sua realização e calendário dessas obras é geralmente rápido. Assim sendo, em muitos casos populações locais de indígenas e ribeirinhos têm se posicionado contra tais obras, pelo impacto que geram sobre os seus locais de habitação, e cabe aos arqueólogos levar isso também em consideração.
13. Qual é a condição dos estudos arqueológicos na Amazônia brasileira: há estudantes e pesquisadores suficientes em campo hoje?
Há cada vez mais estudantes devido à expansão do ensino público que ocorreu nos últimos
anos no Brasil. Estados como Pará, Rondônia e Amazonas têm hoje cursos de graduação em arqueologia, alguns deles muito bem avaliados pelo MEC, em Porto Velho e Santarém. Há também importantes centros de pesquisa, como o Museu Emílio Goeldi, de Belém, um tesouro da ciência e cultura do Brasil, que em 2016 completa 150 anos.
14. Quais são as contribuições e as novas ideias que a arqueologia pode trazer para o debate sobre o futuro da Amazônia?
Creio que a principal contribuição é trazer algum conhecimento sobre formas de ocupação da Amazônia bastante diferentes das que vemos no presente. Não se trata de querer viver no passado, é claro, mas de pensar em maneiras mais organizadas de ocupação que respeitem a biodiversidade e a sociodiversidade da região. Depois de alguns anos de queda, o desmatamento voltou a crescer pelo Sul e Leste da Amazônia, o que é muito ruim, pois os eventuais benefícios dele resultantes são muito pequenos se comparados aos imensos problemas. A Amazônia é um patrimônio inestimável do Brasil, mas é também nossa responsabilidade cuidar dela com inteligência.
15. Para finalizar a nossa conversa Eduardo, como você enxerga o atual momento da Amazônia em relação a sua exploração e as medidas em curso para a sua preservação?
Penso que toda a instabilidade política pela qual passa o Brasil é muito ruim para a Amazônia. Houve no passado alguns erros cometidos, alguns irreversíveis, como a construção das usinas no rio Madeira e Belo Monte, mas havia também esforços genuínos e bem-sucedidos de, por exemplo, redução do desmatamento e homologação de terras indígenas, principalmente até 2010. Neste momento, dentre os apoiadores do atual governo, estão alguns dos maiores desmatadores da Amazônia.
8
Um pouco mais sobre Eduardo Góes Neves
Graduado em História pela Universidade de São Paulo, Mestre e Doutor em Arqueologia pela Universidade de Indiana e Livre Docente pela Universidade de São Paulo. Professor Titular de Arqueologia Brasileira do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas, pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios (CESTA) da USP e coordenador do Laboratório de Arqueologia dos Trópicos do Museu de Arqueologia e Etnologia. Orientou 24 mestres e 8 doutores, além de bolsistas de iniciação científica. Orienta atualmente 8 doutorandos e 2 mestrandos. Tem cerca de 90 publicações, entre livros, artigos, capítulos de livro e textos de divulgação. É coordenador do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do MAE-USP e do grupo de pesquisa “Ecologia Histórica dos Neotrópicos”, do CNPq. Elaborou o programa do Curso Superior de Tecnologia em Arqueologia da Universidade do Estado do Amazonas. Coordenou o Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (2014-2016). Presidiu a Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB) entre 2009 e 2011, e compôs a diretoria da Sociedade de Arqueologia Americana (SAA) entre 2011 e 2014. Foi coordenador adjunto da área de Antropologia/Arqueologia da CAPES entre 2011 e 2014, e membro do Conselho Assessor da Fundação Wenner-Gren de Pesquisas Antropológicas entre 2011 e 2015. Atualmente, encontra-se na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, como Professor Visitante do Dep. de Antropologia e do Rockefeller Center, ministrando cursos sobre a arqueologia da Amazônia.
19-livro-arqueologia-da-amazonia-por-eduardo-goes-neves
Sobre o livro Arqueologia da Amazônia
Eduardo Neves defende nessa obra que a investigação do passado da Amazônia, ao contrário do que se imagina, tem milhares de anos de ocupação humana e pode ajudar no planejamento de um futuro sustentável para a região. Propõe um olhar voltado ao passado para implementação de estratégias para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Indispensável para entender o complexo contexto político e ecológico da região.
Editora Jorge Zahar / Ano 2006
19-livro-arqueologia-da-amazonia-por-eduardo-goes-neves
17-arte-do-convite-da-exposicao-unknown-amazon-realizada-em-entre-outubro-de-2001-e-abril-de-2002-no-british-museum-em-londres-1
Sobre a exposição
Unknown Amazon – Culture In Nature In Ancient Brazil
(Amazonia Desconhecida – Cultura na Natureza no Brasil Antigo)
Traz à vida as tradições culturais da floresta tropical do Brasil, uma vasta área onde as pessoas viveram a milhares de anos, desenvolvendo estilos de arte sofisticadas, muito antes do contato europeu com Americas. British Museum (25 de Outubro de 2001 a 01 de Abril de 2002) – Londres – Inglaterra


Texto Original: http://www.revistacircuito.com/?p=18007

0 comentários :

Postar um comentário