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6 de julho de 2014

Mesa redonda debate a Terra Preta de Índio - Mamirauá

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Da esq. p/ dir.: Priscila Moreira (INPA), Angela Steward (IDSM), Eduardo Neves (USP) e Wenceslau Teixeira (Embrapa).

O segundo dia de atividades (03/07/2014) do 11º Simpósio sobre Conservação e Manejo Participativo na Amazônia, organizado pelo Instituto Mamirauá,  foi marcado pela mesa redonda “Um tema e várias abordagens: a Terra Preta de Índio”. A mesa, mediada por Jaqueline Belletti, arqueóloga e pesquisadora associada do Instituto Mamirauá, foi composta pelo Dr. Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, pelo Dr. Wenceslau Teixeira, da Embrapa do Rio de Janeiro, pela Ma. Priscila Moreira, do Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas, e pela Drª Angela Steward, pesquisadora titular do Instituto Mamirauá. 

Existem diversos exemplos de solos que são compostos a partir da ação humana.  Particularmente na Amazônia, esta ação antrópica garantiu que se criasse uma camada de solo altamente fértil, chamada de Terra Preta de Índio. Sendo o solo amazônico pobre do ponto de vista de nutrientes, essa intervenção humana conseguiu equacionar dois problemas: como fertilizar o solo e como mantê-lo fértil. Wenceslau Teixeira mostrou que a Terra Preta de Índio “é na verdade um horizonte de solo, uma camada que se caracteriza por ser da cor preta, por exemplo, não tem terra preta de índio amarela, pela presença de artefatos, o que indica que é antrópica, e pela alta concentração de elementos de fósforo, cálcio, zinco, manganês, estrôncio, em relação aos solos adjacentes. Também apresenta o que chamamos de horizonte A muito mais espesso, o que garante um estoque de carbono muito maior.  Existe um mito de que Terra Preta de Índio tem mais teor de carbono. Isso é um mito. Ela tem muito mais estoque de carbono ”.  E este carbono, de alta qualidade agronômica, permite reter de maneira mais eficiente os nutrientes no solo. 

Para Priscila Moreira, a Terra Preta de Índio é resultado de uma manipulação consciente da paisagem. Esta camada cria no solo uma espécie de reserva de agrobiodiversidade. Desta forma, “os humanos criam lixeiras e depositam restos orgânicos, associados às cinzas e ao carvão em pequenas fogueiras, o que representa manipulações conscientes, propiciando mudanças na ecologia da paisagem e na demografia de populações de plantas e animais. Se aquela lixeira, que vai sendo feita e usada e novamente reocupada ao longo de milhares de anos, isso vai modificando o solo e tornando ele mais fértil. Essa interação culmina em uma paisagem mais favorável aos humanos”, apresentou Priscila. 

Assim, a Terra Preta de Índio também evidencia a ocupação humana ao longo do tempo e pode traçar um mapa da expansão destas ocupações pela Amazônia. Para o arqueólogo Eduardo Neves a Terra Preta de Índio pode ser vista como um produto histórico, sendo “um bom marcador para nós, cronológico, de mudanças sociais que vemos ao longo da calha do Amazonas”. Os achados arqueológicos neste tipo de camada do solo indicam determinados contextos culturais, além de outras evidências que lançam luz sobre a práticas alimentares e disseminação de plantas. “Conseguimos identificar hoje, na calha do Amazonas, qual foi o contexto cultural do processo inicial de formação destas terras pretas, e aqui entra a nomenclatura arqueológica, o que chamamos de tradição Pocó-Açutuba”, afirma Eduardo. 

Angela Steward fechou a apresentação mapeando os trabalhos de pesquisa e manejo de agroecossistemas desenvolvidos pelo Instituto Mamirauá. Grande parte das atividades agrícolas desenvolvidas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã são em áreas de forte presença de Terra Preta de Índio. Além dos trabalhos que envolvem a atividade agrícola, na região do Lago Amanã também encontram-se cerca de 32 sítios arqueológicos.  “A ideia da Amazônia como um lugar habitado há bastante tempo é importante para começarmos a pensar diferente sobre as origens da biodiversidade e os padrões de vegetação. Acho que ainda existe a necessidade de termos uma abordagem que supere a divisão entre natureza e cultura, que ainda é prevalente. É importante ressaltar isso em um evento que trata de conservação e manejo, porque se a gente não partir da premissa que a intervenção do ser humano na paisagem pode ser mais do que uma ação somente predatória, os esforços de atividades de manejo não terão sucesso ”, concluiu Angela. 

Texto: Vanessa Eyng
Foto: Gerson Lopes

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