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12 de abril de 2014

Busca por "cidade perdida" Inca pode colocar em risco indígenas isolados

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Expedição de seis semanas planejada para Julho irá percorrer o Megantoni National Sanctuary, no sudeste do Peru.
Fotografia aérea de uma das populações isoladas. Foto: EPA.

O escritor e aventureiro francês Thierry Jamin planeja explorar uma das partes mais remotas da Amazônia Peruana em busca da "cidade perdida" Inca de Paititi, mas a sua expedição poderá colocar em risco a saúde de algumas tribos isoladas que vivem na região.

Thierry acredita que a cidade de Paititi estaria em algum lugar dos 215.000 hectares que protegem a Megantoni National Sanctuary em Cusco, região sudeste do Peru. Em uma matéria publicada pelo The Guardian, Thierry afirma que "as magnificências descobertas realizadas pelo meu grupo nos vales de Lacco, Chunchusmayo e Cusirini, no norte do departamento de Cusco, nos conduziram para uma zona precisa situada no Megantoni National Sanctuary. Muitas nativos da floresta - Matsinguengas - afirmam que ruínas monumentais existem no topo de uma estranha montanha quadrangular. Eu acredito que estamos muito próximos de oficializar a existência de um grande sítio arqueológico"*.

Da esq. p/ dir.: Arqueólogo Domingo Farfán do Ministério da Cultura
e Thierry Jamin durante a visita ao sítio de Umapata em 2011.
Foto: Thierry Jamin/Instituto Inkari.
A busca por Paititi ou a "cidade perdida Inca" tem atraído bastante atenção e considerável controvérsia desde o século XVI, com conflitos de teorias e idéias de onde ela estaria e se realmente existe. Segundo o arqueólogo finlandês Martti Pärsinnen "os Incas conquistaram territórios dos Machinguenga e Piro e construíram estradas, pontes e alguns assentamentos fortificados, o que significa que em Megantoni algumas construções e objetos do tipo Inca possam ser encontrados. No entanto, Paititi não está lá... Primeiramente, ele está localizado em algum lugar ao sul ou leste da confluência entre os rios Beni e Madre de Díos, mas durante o período colonial alguns incas refugiados se restabeleceram próximo à Serra dos Pacaas Novos"*. Em Rondônia, um grupo de professores e estudiosos tem buscado evidências de que a cidade de Paititi estaria na região centro-sul do estado.

O Megantoni National Sanctuary

Localizado na parte central da bacia do rio Urubamba, na Cordilheira de Ausangate, distrito Echarate, província da Convenção (departamento de Cusco), possui uma área de 215.868,96 hectares e abriga diversos sítios arqueológicos Inca e de períodos anteriores.


Os Machiguenga, conforme sua tradição oral, afirmam que esta região seria sua área de origem. Acredita-se ainda que este lugar represente ligação histórica entre Andes e Amazônia, pois deste ponto partem diversos caminhos (calçados com pedra) que adentram a floresta amazônica, permitindo acesso a diferentes cidades e fortalezas do período incaico.

De acordo com o plano diretor do Santuário toda a área foi dividida em diversas "zonas", onde diferentes atividades são permitidas. A maior e mais remota zona está localizado no extremo leste do Santuário e é uma "Zona de Proteção Estrita" (ZPA). Seu principal objetivo é proteger as tribos que se isolaram voluntariamente, onde pesquisas científicas são permitidas somente em circunstâncias especiais.

Por conta disso, alguns especialistas estão temerosos que essa expedição traga resultados desastrosos para os povos que estão isolados no Santuário - conhecidos como povo Nanti e as vezes chamados de Kungapakori. Um dos principais motivos para a criação do parque há 10 anos atrás era proteger os grupos indígenas que possuíam pouco ou nenhum contato com os não-índios, além de protege-los de doenças infecciosas para os quais não possuem anticorpos.

A região tem sido palco de diversos conflitos que atendem interesses econômicos e políticos. Por possuir uma rica reserva de óleo e gás natural, o Santuário (e seus habitantes) vem resistindo a diversas investidas da iniciativa privada e pública desde o final do século XX. Em 1980, a companhia de óleo Shell resolveu explorar parte dessa região e entrou em contato (desastrosamente) com os até então isolados Nahua. Em pouco tempo, mais de 50% de sua população pereceu frente as doenças trazidas pelos trabalhadores.

Atualmente, um consórcio de companhias liderada pela argentina Pluspetrol está atuando diretamente no território Nahua e pretende expandir o projeto de exploração de gás natural. Será o maior campo de gás do Peru e é conhecido como Camisea.

Projeto Camisea

Camisea atua dentro da reserva de povos isolados e não contactados, incluindo os Nanti e Matsigenka. Expansões posteriores do projeto poderão resultar na extinção desses grupos vulneráveis. Enquanto isso, o Peru mantém a política internacional de "portas abertas", encorajando novas companhias a explorar áreas habitadas por povos isolados, incluindo os Mashco-Piro e Isconahua.

A exploração do Mogno também é uma das principais causas de conflito no Santuário e que na década de 1990 causou o mesmo desastre que a Shell provocou, porém com os grupos isolados Murunahua, onde 50% faleceu de doenças infecciosas (gripes e resfriados) e muitos fugiram para a fronteira com o Brasil.

A expedição e o risco com os isolados

De acordo com o site oficial, Thierry planeja uma excursão de seis semanas com início em Julho e ele conta com o apoio da ONG Instituto Inkari (presidido por Thierry) e um grupo de Machiguengas de um vilarejo próximo ao santuário. O destino específico da expedição não foi divulgado, mas segundo informações  que ele repassou ao The Guardian, a idéia é viajar ao longo do rio Ticumpinia, que atravessa a ZPA.

Lelis Rivera, que trabalha para a ONG Cedia e participou ativamente na criação do Santuário, aponta que a presença de forasteiros no Santuário poderá trazer malefícios para as pessoas que vivem lá e entrar na ZPA é completamente proibido pelas leis peruanas.

"Qualquer pessoa que vive no alto Timpia ou na região do Ticumpinia são extremamente vulneráveis para a transmissão de germes - essa é a natureza de quem vive em relativo isolamento social e imunológico"*, conforme a antropóloga Christine Beier da ONG Cabeceras Aid Project e uma das grandes especialistas sobre a sociedade história Nanti.

Thierry afirma que irá apelar ao Ministério do Meio Ambiente, que supervisiona a gestão das "áreas naturais protegidas", para obter a permissão de entrar no Santuário. Segundo o mesmo, ele já teria feito o pedido formal ao Ministério da Cultura. Porém, segundo o próprio ministro Ramon Rivero Mejia, ele não havia sido notificado de nenhum pedido, seja de Thierry, de sua ONG ou de qualquer membro de sua equipe.

( * ) - Traduzido pelo autor
Texto: Eduardo Kazuo Tamanaha
Fontes: Survival International; The Guardian; Andes to Amazon - David Hill Blog; CuscoPeru.com

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