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6 de junho de 2013

Terra Preta de Índio desperta interesse da ciência internacional - Embrapa

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Foto: Embrapa
A biodiversidade e as riquezas que caracterizam a Floresta Amazônica sempre atraíram os olhares do mundo. Mais recentemente, a ciência internacional tem se interessado por um patrimônio histórico que está relacionado aos povos que habitaram a região no passado: a Terra Preta de Índio (TPI). Pesquisadores estrangeiros da Europa, Ásia, África e América – que participaram em maio do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, em Manaus – tiveram a oportunidade de conhecer o solo, durante visita realizada ao campo experimental Caldeirão, da Embrapa Amazônia Ocidental, no município de Iranduba (AM).

O pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental, Aleksander Westphal Muniz, explicou ao grupo alguns dos detalhes já conhecidos sobre a Terra Preta de Índio (TPI), como as características de acúmulo de matéria orgânica e a fertilidade inerente ao solo. As TPIs são manchas de solo escuro encontradas na Bacia Amazônica e que podem variar de áreas menores, de cerca de um hectare, até extensões com mais de cem hectares.

Em uma escavação realizada em uma área do campo experimental, os visitantes puderam visualizar com clareza a coloração da terra, que se mantém mais escura até uma profundidade que varia de 30 centímetros a um metro, aproximadamente. Os solos são caracterizados pela ampla disponibilidade de nutrientes como cálcio, magnésio, zinco, manganês, fósforo e carbono. As áreas de TPI fazem um contraponto à maioria dos solos da região amazônica, que apresentam a coloração amarelada, baixa fertilidade e acidez – condições desfavoráveis à agricultura.

Neste contexto, a Embrapa, juntamente com outras instituições, busca conhecer melhor as características físicas e químicas da Terra Preta de Índio, assim como seu processo de formação e evolução. Uma dos objetivos deste esforço é tentar reproduzir estas particularidades, especialmente as relacionadas à fertilidade, como forma de usar as informações no âmbito da agricultura. “A nossa ideia é que, se isso puder ser replicado de alguma forma, nós podemos melhorar os solos no Brasil e diminuir as emissões de carbono”, explicou o pesquisador Aleksander Muniz durante a visita.

A comitiva foi formada por pesquisadores da Alemanha, Canadá, Estônia, Senegal, Japão, Indonésia, Suécia e Holanda. Também participou da visita a pesquisadora brasileira do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Françoise Yoko Ishida. O alemão Christoph Mueller, que possui pós-doutorado em ciência do solo e atua como professor da Universidade Justus-Liebig Giessen, da Alemanha, participou do roteiro. Ele integra projeto relacionado à dinâmica de nitrogênio (N) em Terra Preta de Índio na Amazônia Ocidental, liderado pelo pesquisador da Embrapa, Aleksander Muniz.

O projeto sobre dinâmica de N em TPI visa elucidar como ocorrem as transformações do nitrogênio nesse solo. “Isso é importante, porque 55% do N que entra no ciclo terrestre é utilizado em culturas agrícolas, enquanto o restante é perdido em processos de lixiviação, erosão e emissão de gases no solo. Entre esses gases destaca-se o óxido nitroso, que é um gás de efeito estufa. Esse gás destrói o ozônio estratosférico e tem um grande impacto no aquecimento global, pois é 316 vezes mais reativo que o CO2”, destacou Muniz.


Roteiro
O roteiro dos pesquisadores estrangeiros ainda contou com visita, também no campo experimental do Caldeirão, a uma área de Terra Mulata, solo que possui elementos semelhantes à Terra Preta de Índio. O itinerário foi encerrado com uma visita à Reserva Ducke, do Inpa, em Manaus.


Participantes
Além de Christoph Mueller, também participaram da visita os seguintes pesquisadores/professores: o alemão John Couwenberg, da Universidade Greifswald da Alemanha; o sueco Leif Klemedtsson, da Universidade de Gotemburgo da Suécia; o canadense David Paré, do Instituto de Recursos Naturais do Canadá; o indonésio Gusti Anshari, da Universidade de Tanjungpura da Indonésia; o holandês Hans Joosten, da Universidade Greifswald da Alemanha; o estoniano Ülo Mander, da Universidade de Tartu da Estônia; o senegalês Papa Mawade Wade, da Organização Wetlands International Africa; e o japonês Mitsuru Osaki, da Universidade de Hokudai do Japão.


Locais de incidência e origem
No Amazonas, a Terra Preta é encontrada em municípios como Autazes, Parintins, Iranduba e Manacapuru. O município de Santarém, no Pará, foi estruturado sobre este tipo de solo, que é encontrado também em outros locais da Amazônia. Outras pesquisas indicaram a existência das Terras Pretas em outros países como a Colômbia. As importantes informações relacionadas ao solo, e que em muitos pontos ainda é desconhecida, fazem das áreas de TPI sítios arqueológicos potenciais. A origem dos solos de Terra Preta de Índio da Amazônia está relacionada a povos ancestrais pré-colombianos.


Embrapa Amazônia Ocidental
No campo experimental do Caldeirão estão localizadas três manchas de solo com Terra Preta de Índio. A área corresponde a um sítio arqueológico de aproximadamente 23 hectares. Na Embrapa Amazônia Ocidental, além de Muniz, os pesquisadores Gilvan Coimbra e Orlando Paulino também trabalham em pesquisas com o tema Terra Preta de Índio.


Entrevista com o pesquisador alemão Christoph Mueller

1. Qual sua avaliação em relação à visita realizada nas áreas de Terra Preta de Índio?
CM - Foi muito interessante ver os locais de Terra Preta, pois é diferente você observar os ecossistemas em seus ambientes naturais. A visita foi bem organizada e abrangeu todos os aspectos que são importantes para melhor compreensão da Terra Preta. Além disso, foi interessante ver a diferença entre a Terra Mulata e a Terra Preta. E também, a diferença óbvia entre os latossolos e a Terra Preta. Essa diferença abre perguntas sobre como ocorreu o desenvolvimento dessa Terra Preta. Neste contexto, a origem antropogênica desses solos, como documentado pelas peças de cerâmica encontradas permite a formulação de várias perguntas. Entre essas, se os solos foram criados por acaso ou se eles foram criados de propósito e ainda permanecem. Isso mostra que os povos indígenas tinham uma visão mais profunda sobre o que estavam fazendo – basicamente a criação de solos com alta fertilidade. Outro aspecto interessante foi ver as diferentes espessuras da Terra Preta, variando de solos muito profundos (maiores que um metro) para solos rasos (menores que 30 centímetros). Talvez, essa variação indique que havia pontos de coleta de sobras, que eram misturados ao carvão após a queima, e distribuídos mais tarde? Outro aspecto importante da visita foi a observação da transição entre a Terra Mulata e a Terra Preta. Se a Terra Mulata foi criada por um processo de formação natural, pode ser que este solo, que é naturalmente mais fértil, possa ter tido sua fertilidade melhorada, através da adição de material orgânico como lixo doméstico. Em resumo, a visita destacou vários aspectos sobre possíveis questões de investigação e de pesquisa relacionados à Terra Preta, e a necessidade de maiores pesquisas.

2. Por que a ciência internacional está interessada em conhecer melhor este solo?
CM - Há dois aspectos principais que, a partir de uma perspectiva internacional, são muito interessantes para pesquisar a Terra Preta. Em primeiro lugar, a investigação da elevada fertilidade do solo. O que torna esta terra tão singular em termos de alta fertilidade? Em particular, a elucidação dos ciclos elementares (por exemplo, nitrogênio, carbono) em contraste com o solo “não-antropogenicamente” afetado nesta área irá fornecer informações importantes sobre como as alterações antrópicas afetam os ciclos de nutrientes e sua renovação nos solos. Isso é importante para o desenvolvimento de práticas de gestão que aumentem a fertilidade do solo a longo prazo, sem a adição de fertilizante mineral. Assim, estes solos podem fornecer ideias sobre possíveis práticas de manejo sustentável, que possam ser aplicadas em outras áreas do mundo para melhorar a fertilidade do solo em uma agricultura sustentável. O outro aspecto importante é a investigação do mecanismo de sequestro de carbono destes solos. O biocarvão, presente na Terra Preta, é geralmente muito estável e, por conseguinte, fornece um alto potencial no sequestro de carbono. Este aspecto combinado com a alta fertilidade, como mencionado acima, é exclusivo destes solos. Em contraste com a pesquisa moderna de biocarvão, que necessita de avaliações de longo prazo sobre os efeitos das práticas de manejo sobre a dinâmica nutricional no solo. Essa dinâmica é única e só pode ser utilizada em solos como a Terra Preta, que foram criados ao longo de milhares de anos. Assim, a Terra Preta pode atuar como um modelo de solo, para entender melhor a fertilidade a longo prazo e o potencial de sequestro de  carbono, em resposta a práticas de gestão antropogênicas.

Embrapa Amazônia Ocidental
Felipe Rosa ( MTb - 14406/RS )
felipe.rosa@embrapa.br

Telefones: (92) 3303-7852/ 3303-7860


Fonte: Embrapa

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