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25 de junho de 2013

Pajés da Amazônia mantêm medicina secular e atraem atenção da ciência

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Rituais, chás, plantas medicinais e defumações são instrumentos utilizados por pajés da região amazônica para curar  enfermidades entre a população indígena. Em Manaus, a mestra em Antropologia Social, Kalinda Félix, analisou a etnia Sateré-Mawé de acordo com os seus costumes e tradições, e confirmou que essa figura do líder tribal ainda permanece com a força de curandeiro, mesmo sob a influência damedicina moderna. Ela avaliou que a sabedoria indígena e a biomedicina podem, sim, andar juntas na readaptação do doente – até mesmo entre ‘não indígenas’.
Por dois anos, a pesquisadora trabalhou no estudo intitulado “Regimes e Transformações Cosmológicas da Pajelança Sateré-Mawé”, pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Nesse período, ela observou que os pajés trabalham inter-relacionando ervas e rituais e o uso de medicamentos do “homem branco”. Essa mescla acontece, segundo a especialista, principalmente quando os líderes identificam que a doença independe dos conhecimentos étnicos. “Embora o médico passe um tratamento com remédios ambulatoriais, eles não deixam de praticar a medicina própria, seja por meio das plantas ou das benzeções, defumações ou rituais”, explica.
pesquisa confirmou que, divididos em classes, existem diferentes atribuições para o especialista de cura. “Nem todos podem ser chamados de pajés, porque para chegar a esse patamar é preciso haver muita preparação. Existem os painis, que é o pajé, curador ou curandeiro; o ipoityro, que é o benzedor ou rezador; o pegador de osso, desmentidura ou rasgadura; e ainda o conhecedor das plantas medicinais, ou simplesmente chamado de ervateiro”, explica.
Postos no topo da hierarquia, os pajés sobrevivem no Amazonas pela crença indígena de que são aprendizes de ‘espíritos guias’. Chefe da Comunidade Indígena Bayaroá, “Seu Justino” conta ao portalamazonia.com que os saberes típicos são passados de geração em geração, como uma herança cultural. “O pajé mais experiente ensina aos mais jovens ou apresenta os rituais, seguindo os ensinamentos dos espíritos guias”. Ele acrescenta que o pajé não pode passar o espírito para qualquer pessoa; é preciso haver um dom. “Verificamos com os espíritos quem tem um bom coração e se é possível essa pessoa receber as orientações de reza”, lembra.
A doutora em Ciência Social pela Universidade de São Paulo (USP), Deise Lucy Montardo, desenvolveu a pesquisa ‘Xamanismo, regime de alteridades e estéticas territoriais na região amazônica’. Ela afirma que a Ciência, hoje, valoriza a sabedoria indígena com os seus rituais e cura por meio de plantas. Porém, ainda existem conflitos nessa relação, como ela lembra do caso da família da menina indígena da etnia Tukana que processou o Estado do Amazonas e a União por descaso médico.
O caso aconteceu em 2009, no município de São Gabriel da Cachoeira, no alto Rio Negro. Na ocasião, uma criança foi picada por uma cobra e recebeu, primeiramente, um tratamento no Hospital João Lúcio. O pai da criança não aceitou a forma de tratamento utilizado pelos médicos, que não autorizaram a parceria entre a medicina ocidental e com o tratamento tradicional. O pai denunciou o caso no Ministério Público por omissão e preconceito em relação aos saberes indígenas. Após a criança ser transferida para outro hospital, ela recebeu atendimentos no Hospital Universitário Getúlio Vargas, que concedeu a autorização para que pajés e curandeiros também atuasse no caso.
Em Manaus, a mestra em Antropologia Social, KalindA Félix, analisou a etnia Sateré-Mawé de acordo com os seus costumes e tradições. Foto: Jacqueline Nascimento/Portal Amazônia
Em Manaus, a mestra em Antropologia Social, KalindA Félix, analisou a etnia Sateré-Mawé de acordo com os seus costumes e tradições. Foto: Jacqueline Nascimento/Portal Amazônia
Rituais
Dois elementos principais regem os tratamentos de cura na comunidade Bayaroá, onde vivem famílias das etnias Tukano, Dessana, Taruano, Tuyuca, Bará, Barassano, Pirá-tapuia, Cuanama, Miriti Tapuia e Baré. A água simboliza purificação, tanto para afastar os espíritos maus quanto para tratar as enfermidades. Já o fumo do tabaco feito de folha de sororoca está presente nos rituais para proteção do pajé e da pessoa. “Os doentes que vêm se consultar trazem espíritos ruins. O cigarro é sagrado. Para vocês [brancos] é simples, mas para nós [indígenas] não”, observa.
Para os indígenas, o pajé ou paini é um “curador que tudo vê e pressente”. Nesse contexto, os sonhos também são poderosos na cultura indígena amazônica. A antropóloga Kalinda Félix explica que na etnia Sateré, as mensagens captadas enquanto os pajés dormem os guiam no tratamento nas aldeias. “A pessoa explica todo o problema para o pajé. Ele, ao sonhar, pede aos espíritos a melhor forma de cura”, observa.
Durante as análises da pesquisadora, os índios informaram que o Ritual da Tucandeira, realizado como passagem do menino criança para a fase adulta, também serve como “vacina” para não adoecer, ficar forte e se tornar um bom guerreiro.
Intercâmbio de saberes
Kalinda lembra que a eficiência de alguns destes métodos indígenas já atrai não índios às aldeias do Amazonas. Em Iranduba, por exemplo, a pajé conhecida como “Dona Bacu” atende doentes de fora da etnia Sahu-Apé. Se para os indígenas do grupo não há cobrança alguma, a consulta para outras pessoas precisa ser paga. A quantia depende das condições econômicas, pondendo ser revertida em forma de cesta básica, roupas, sapatos e utensílios domésticos. Seu Justino compartilha da mesma ideia, se algum não-indígena procurá-lo para realizar tratamento ele será realizado. “O pagamento é o que a pessoa pode dar”, explica.
Ao mesmo tempo que a medicina volta os olhos para os conhecimentos seculares indígenas, aumenta a procura desses métodos. Para a pesquisadora, alguns indígenas observam de forma positiva a atuação dos pajés na cura de doenças em brancos, outros, porém, acreditam que algumas dessas sabedorias devem ser preservadas.
Enquanto há o crescimento desses costumes entre não indígenas, o movimento é inverso nas aldeias. O embate entre a modernidade e as crenças tradicionais, apesar de não ter acabado com a pajelança, enfraqueceu a procura dos próprios indígenas pela cura de forma “natural”. Seu Justino confirma a perda dessa cultura. “Os índios da cidade ou urbanos costumam procurar mais os distritos de saúde. Eles não estão mais conhecendo as ervas e o poder que algumas têm para sanar as doenças”, analisa.
Kalinda classifica essa falta de interesse pelas práticas medicinais indígenas, por serem índios acostumados aos medicamentos industriais. “O efeito medicamentoso é mais rápido, diferente de um tratamento com plantas, por exemplo, onde o efeito ocorre mais lentamente. A mudança dos índios das aldeias para a cidade influencia na transformação ao longo dos anos nas práticas de cura e concepções de doença”, explica.
A antropóloga enfatiza que há pouco resgate dessa tradição. “Ouvi relatos das antigas mães sateré, que dizem que as mais novas não realizam alguns rituais, como o resguardo da criança. Pela tradição, os bebês devem ficar por três meses somente dentro de um quarto e só receber visitas de familiares. Hoje, isso não tem mais acontecido”, salienta.
a pajé conhecida como “Dona Bacu” atende doentes de fora da etnia Sahu-Apé.Foto: Divulgação/Portal Seind
A pajé conhecida como “Dona Bacu” atende doentes de fora da etnia Sahu-Apé.Foto: Divulgação/Portal Seind
Distritos de saúde
Em 2006, foi implantado em Manaus o Plano Municipal de Atendimento à Saúde Indígena. Segundo a técnica responsável pela ação da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), Paula Francineth, o trabalho é de inclusão dos povos indígenas nos distritos de saúde do município. “Em 2005, iniciamos um mapeamento das etnias residentes em Manaus para conhecermos a realidade de cada população. O índio sempre teve atendimento nas unidades, porém eles não tinham instrumentos de informação”, explica.
Paula salienta que os agentes de saúde receberam orientações sobre o comportamento de cada aldeia. “Essa capacitação foi baseada em três pilares: eles precisavam conhecer a política de saúde indígena, o subsistema de saúde indígena do SUS e o direito deles”, argumenta.
Em 2010, o Manual de Atendimento Indígena apontou as diretrizes e normas a serem seguidas por técnicos, marcando a mudança de comportamento para a inclusão social dessas populações. Hoje, segundo antropólogos ouvidos pela reportagem, o diálogo entre o agente de saúde, médico e o indígena é mais fácil. “Cursos entre médicos e pajés ajudam para que ambos possam entender as práticas de cada um”, enfatiza Kalinda.
Entretanto, a pesquisadora acredita que poucos são os médicos que aceitam a participação do pajé no tratamento do paciente indígena. “É uma questão de status, pois o médico passou anos na academia. Porém, eles precisam entender que os pajés também têm a sua medicina tradicional”, salienta.
Para o presidente do sindicato dos médicos no Amazonas, cirurgião geral e médico obstetra laparoscopista, Mário Vianna, o uso de medicações deve ter, se possível, sempre a supervisão de um médico. “ A medicina tradicional precisa respeitar a medicina popular adequando substâncias naturais comprovadamente com propriedades terapêuticas a realidade da comunidade onde o médico atua ”, pontua.
Na visão de Vianna, o respeito as culturas dos indígenas deve ser uma das formas de interação dos médicos com o povo da floresta. “A presença destes representantes nos hospitais pode favorecer a cura como um suporte emocional e espiritual ”, salienta.
Seu Justino disse que já atuou em parceria com a “medicina do branco”. Ele se lembra do caso de um parente que caiu no interior do Amazonas, no Solimões. O paciente ficou em estado de coma e precisou da assistência social da Casa de Saúde Indígena (Casai). “Ele só estava mexendo a cabeça. Então os parentes entraram em contato com a assistente, que me procurou para poder ir até o local. Recebi a autorização dos diretores do hospital e da assistência social para que eu pudesse entrar no leito e trabalhar com a minha reza. Hoje, ele está bem de saúde”, explica.
A agente técnica de saúde explica que a Semsa trabalhou, primeiramente, com a saúde da mulher indígena. Já o ano de 2012 foi dedicado às crianças e adolescentes indígenas. Em 2013 será a vez dos idosos. “É um trabalho contínuo. É preciso que a população indígena seja atendida com tratamentos básicos, sem perder os seus costumes”, finaliza.
Seu Justino observa que se um índio estiver com um grave problema de saúde, e não conseguir realizar a cura através das ervas o pajé vai orientar que a pessoa procure um hospital. “É preciso observar a gravidade do problema. Temos que trabalhar em sociedade com os médicos, enfermeiros e técnicos nas aldeias”, conclui.


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