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2 de junho de 2013

O ponto de vista do milho - Jornal Estado de SP

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"Caro Fernando, como você sabe, nunca fomos considerados uma das espécies mais inteligentes do planeta, nem sequer temos cérebro, não temos linguagem e muito poucos acreditam que temos vida sentimental (nem sei como consegui escrever esta carta). Mas nada disso importa no processo de seleção natural, que é a lei que impera entre os seres vivos. O que importa é deixar muitos descendentes, ocupar de maneira eficiente os ecossistemas e ser capaz de se adaptar quando o ambiente muda. Por tal ponto de vista, acredito que somos muito mais bem-sucedidos que a espécie humana. Fomos nós, os milhos e outros vegetais, que domesticamos os seres humanos e não o contrário, como você vem pregando em seus artigos. Nós que incentivamos o crescimento de sua população para que pudesse nos ajudar a cumprir nosso sonho imperialista. Posso afirmar que nosso projeto foi um sucesso. Para cada um de vocês, existem mais de mil pés de milho. Tudo isso conquistado em menos de 10 mil anos.

Como tudo o que acontece de importante entre os seres vivos, nosso processo de domesticação começou por acaso, em algum lugar do México. Naquela época, quando vivíamos em constante competição com outros vegetais, sofremos mutações que pareciam letais. Nossos grãos, que antes se soltavam do sabugo ao amadurecer, deixaram de se soltar, e as espigas, ainda pequenas e primitivas, deixaram de se abrir facilmente. As sementes passaram a ter uma enorme dificuldade de germinar. Mas, para nossa sorte, seus antepassados viram nisso uma grande vantagem. Eles passaram a colher o grão antes que caísse no chão.

Além de comê-los, passaram a plantar de maneira organizada os primeiros campos. Foi esse acidente da natureza que permitiu que domesticássemos o ser humano. Com a alimentação abundante que produzimos, induzimos o ser humano a deixar de ser um animal primitivo e violento, caçador e coletor de alimentos, que migrava de um vale para outro exterminando mamíferos. Conseguimos fazer de vocês animais relativamente dóceis. Vocês se organizaram em sociedades capazes de dedicar esforços para promover a expansão e o bem de nossa espécie, a Zea mays.

Primeiro vocês retiraram nossos competidores, limpando o campo antes de plantar nossas sementes e arrancando as plantas que ameaçavam nosso crescimento. Depois, inventaram o arado para facilitar a penetração de nossas raízes na terra. Quando descobriram os adubos e a irrigação e passaram a nos ajudar em nosso plano de expansão global com tecnologia, fomos generosos e produzimos mais alimentos para seus filhos. Afinal, sabíamos que seus filhos nos levariam da América para a Europa e a Ásia e promoveriam nossa ambição imperialista.

Hoje posso revelar que vocês são nossos escravos. Sem nós, não poderiam alimentar os animais que copiaram nossa estratégia de dominação do ser humano (como as vacas e as galinhas) e morreriam de fome. A dependência é tanta que gastam bilhões para encontrar o petróleo para produzir os fertilizantes que consumimos. Outros bilhões são gastos para modificar nossa genética para podermos ocupar uma área cada vez maior do planeta. Seus cientistas produzem inseticidas que combatem nossos inimigos naturais. Lamento dizer que ,apesar de não termos cérebros, grande parte dos cérebros da humanidade estão a nosso serviço. Um abraço darwiniano do seu dono, o milho."

Mais informações em The Omnivore''''s Dilemma, de Michael Pollan, Penguin Books, 2007.


*Biólogo (fernando@reinach.com)


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