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20 de junho de 2013

Aumento de pesquisas compromete preservação de sítios históricos - Repórter do Futuro

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Arqueologia, diz pesquisador, se tornou indústria 
de legitimação do desenvolvimento
Autor: Luciano Bitencourt

Eduardo Góes Neves está longe de ser ator de Hollywood e nem optou por desenterrar tumbas e sarcófagos no Velho Mundo, mas deve estar cansado de ouvir as piadinhas sobre Indiana Jones. Arqueólogo, ele é professor do MAE/USP – Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, onde ensina na graduação e pós-graduação, e do programa de pós-graduação em antropologia social da Universidade Federal do Amazônia. “A arqueologia virou uma indústria”, denuncia o ex-presidente da Sociedade de Arqueologia Brasileira (2009 e 2011). “As usinas que serão construídas no Tapajós vão acabar com tudo.”

Em 20 anos, 1991 a 2011, o número de concessões de pesquisa emitidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) subiu 300%, de acordo com Eduardo Neves. É um paradoxo: mais pesquisas, menos preservação. “A gente acredita que a pesquisa vai ajudar a conservar, mas está ajudando a destruir”, diz. No que toca à riqueza arqueológica da bacia Amazônica é de cair o queixo as descobertas realizadas pela equipe do pesquisador. Na manhã de 25 de maio, durante o 7° curso do Projeto Descobrir a Amazônia – Descobrir-se Repórter, no auditório do IEA/USP (Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo), Eduardo Neves fez a revelação: Santarém é a cidade mais antiga do Brasil.


Projeto Repórter do Futuro: Existe algum indício de Judeus ou Hebreus no Brasil, precisamente na Amazônia, anterior aos portugueses?

Eduardo Goés Neves: Não. Não conheço nenhum objeto, nenhum indício. E ninguém na arqueologia trabalha com essa hipótese. Pode até ser que alguém trabalhe, mas eu desconheço. Não sei de nenhuma ocupação de hebreus na arqueologia da Amazônia. Eu desconheço qualquer trabalho nesse sentido. Até o momento não existe nenhuma evidência arqueológica que comprove isso.


PRF: A prof. Jane Bichmacher de Glasman, da UERJ, trabalha com esse tema. No âmbito especulativo, caso venha à tona, tal evidência poderia mudar a forma de se entender o índio brasileiro?

EGN: Se isso fosse comprovado, sem dúvida, seria uma informação interessante, mas teria que se ver até que ponto essa influência se caracterizou. Geralmente, essas afirmações são um pouco racistas, uma vez que se retira dos índios da região do Novo Mundo a capacidade de inovação. Volta-se naquela história: é sempre alguma coisa que tem que vir de fora, de outro planeta, ou do Oriente Médio, da Europa. Trabalho bastante com os linguistas históricos também, e nenhum deles têm essa linha de pesquisa.


PRF: Já foi realizado algum trabalho de sequenciamento genético do material humano encontrado dentro das urnas funéreas?

EGN: Quando é possível sim, quando dá para extrair o DNA, mas não tem nada até agora que fuja do padrão dos ameríndios.


PRF: E o sangue polinésio nos antigos índios Botocudos, de Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia?

EGN: De fato nós temos evidências de contato entre a Polinésia e a América do Sul, porque algumas plantas como a batata doce, que é sul-americana, também era cultivada na Polinésia quando os europeus chegaram aqui. Isso não é só plausível, como está estabelecido. Mas é um contato do que eu chamaria de Sul a Sul, ou seja, o contato da Polinésia com a Amazônia não passa pela Europa e nem pelo Oriente Médio. A colonização da Polinésia foi a partir do sudeste da Ásia. Ainda hoje fala-se línguas austronésias, que são línguas que têm relação entre si, mas que têm origem onde está Taiwan, mais ou menos. São faladas no sudeste da Ásia até Madagascar, mas são línguas do Pacífico e do Índico. Não passam pelo Oriente Médio.


PRF: Na opinião do pesquisador Walter Neves (UFMG), responsável pelo estudo do crânio de Luzia*, os estudantes de arqueologia escrevem mal em português e muito pouco dominam línguas estrangeiras (no caso, o inglês). Isso é um empecilho para a produção e divulgação científica na sua área?

EGN: O Walter tem razão, eu fui estagiário dele, o conheço há 30 anos. O problema é sério, hoje faltam arqueólogos no Brasil. A questão de divulgação é muito importante. Nossa legislação é favorável, prevê estudos de arqueologia ligados aos impactos ambientais. Isso está gerando muito trabalho. Para se ter uma ideia há duas décadas o IPHAN, que é órgão responsável pelas portarias, concedeu quatro portarias de pesquisa em um ano. Em 2011, foram 1200. A arqueologia hoje é uma indústria que dá muito dinheiro no Brasil, e que gera muita polêmica também. No entanto, existe uma demanda grande, não se consegue formar arqueólogos suficientes. Porque, a exemplo de qualquer outra formação, é demorada.


PRF: A polêmica na qual o Sr. se refere são as riquezas arqueológicas (urnas, cerâmicas, objetos etc) surrupiadas dos sítios mais a “venda” de laudos técnicos às construtoras de usinas hidrelétricas?

EGN: As usinas que serão construídas no Tapajós vão acabar com tudo, com esse patrimônio. Os sítios que estão à beira do rio vão desaparecer, todos. A arqueologia virou uma indústria. Muitos arqueólogos estão legitimando os projetos de desenvolvimento. É uma situação super complicada. Existe muita gente séria e que tenta levar a diante os trabalhos de impacto ambiental. O que está acontecendo é que tem muita gente que não é séria também. Está muito difícil a situação da arqueologia atualmente. Por um lado é bom porque a atividade está recebendo bastante investimento, por outro é ruim porque o patrimônio histórico nunca foi tão destruído como hoje em dia. Nunca teve tanta pesquisa, mas nunca teve tanta destruição, é uma contradição. A gente acredita que a pesquisa vai ajudar a conservar, mas está ajudando a destruir.


PRF: Como ex-presidente da maior entidade de arqueologia do País, o que Sr. aponta como solução?

EGN: Tem que se discutir, colocar o assunto no Fórum. A Sociedade de Arqueologia Brasileira está propondo essa discussão, mas muitos arqueólogos não querem. A categoria está meia rachada entre os que consideram tudo uma maravilha e aqueles que acham que a situação é complicada. Acredito que não se pode puxar o freio de mão, mas do jeito que está é longe de ser o ideal. Não vai dar certo.


PRF: Durante a palestra o Sr. afirmou que São Vicente, no litoral paulista, não foi a primeira cidade do Brasil.

EGN: Pelo menos do ponto de vista arqueológico, baseado em achados históricos, a cidade mais antiga do Brasil é Santarém, no Pará.

* Crânio feminino de mais de 11 mil anos encontrado no interior de Minas Gerais.

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