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15 de abril de 2013

As terras pretas de índio da Amazônia - Revista Pré-Univesp

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Por: Newton Paulo de Souza Falcão

Tipo de solo representa um importante registro da ocupação humana e do uso do solo da região por populações pré-colombianas



Plantação de mamão na Terra Preta de Indio (TPI) e
fragmentos cerâmicos espalhados pela superfície.
Foto: Acervo ARQUEOTROP.
Em toda a Amazônia, é possível encontrar manchas de solos com uma camada superficial bastante espessa, de coloração preta ou marrom escura, normalmente contendo pedaços de cerâmica. Este tipo de solo constitui uma das feições mais interessantes da paisagem Amazônica e representa um importante registro da ocupação humana e do uso do solo dessa região por populações pré-colombianas. Reconhecidos regionalmente por sua alta fertilidade, tais solos são comumente conhecidos como terra preta de índio (TPI). Ela pode ser encontrada desde as bases inclinadas das montanhas das Cordilheiras dos Andes até a Ilha de Marajó, no Oceano Atlântico, inserida em uma variedade de solos e paisagens, em dimensões que podem variar de menos de um hectare até alguns quilômetros.

O descarte de resíduos orgânicos pelos povos que habitavam a Amazônia deve ter sido de grande influência no aumento desse tipo de matéria nas TPIs. A alimentação com produtos de origem vegetal como, por exemplo, a mandioca, o açaí, a bacaba etc., e de origem animal como ossos, carapaças de tatu, jabuti, caranguejo, conchas etc. produz grande quantidade de matéria orgânica que não é consumida, permanecendo no local.

Esses resíduos orgânicos também devem ser os responsáveis diretos pelo aumento dos teores de alguns elementos químicos nas TPIs. Na região de Belterra, Pará, o húmus nas TPIs é seis vezes mais estável à decomposição que o húmus do Latossolo [1]. A maior estabilidade da matéria orgânica da TPI em relação à degradação faz com que ela seja considerada pelos caboclos como inesgotável em termos de fertilidade.

Redução da emissão de gases do efeito estufa

A manutenção de altos níveis de matéria orgânica estável e de elementos químicos importantes para a nutrição das plantas cultivadas, disponíveis nas terras pretas de índio, está associada a uma grande e prolongada entrada de biocarvão (carvão pirogênico ou biochar), produzido por meio da carbonização de resíduos orgânicos a baixas temperaturas e presença controlada de oxigênio.

A aplicação do biocarvão no solo está sendo considerada um novo modelo de redução das emissões dos gases de efeito estufa e, ao mesmo tempo, uma alternativa para aumentar o sequestro de carbono no solo.
A sua produção e aplicação no solo traz benefícios imediatos para a melhoria da fertilidade do solo e o aumento da produção agrícola. A conversão do carbono da biomassa fresca em carbono na forma de biocarvão possibilita um sequestro de carbono em torno de 50% do carbono contido na biomassa fresca, um valor bem maior do que o que é retido na queima do carvão (3%) ou na decomposição biológica ( entre 10 e 20%, após cinco ou dez anos).

Pequenos e médios produtores dos municípios de Manacapuru, Iranduba, Presidente Figueiredo e Rio Preto da Eva, todos no Estado do Amazonas, trabalham em manchas de terra preta e terra mulata por várias décadas, não somente cultivando hortaliças como também espécies perenes como laranja, cupuaçu, coco, mamão, maracujá etc., em sistemas de monocultivos, cultivos consorciados e sistemas agroflorestais. A maioria dos produtores relata que as manchas de TPI’s são extremamente férteis e que dispensam a aplicação de adubo para aumentar a produtividade.

Entretanto, essa prática tem mostrado que as TPI’s apresentam alguns nutrientes limitantes ao desenvolvimento e produtividade das culturas. Contraditoriamente, alguns produtores utilizam altas doses de corretivos e fertilizantes nas áreas de TPI’s. A exploração intensiva e a utilização de nutrientes de forma desbalanceada causam problemas de degradação química e física desses solos.

Recriando a terra preta de índio

Pesquisas recentes na Amazônia identificaram um processo de manejo dos solos dos quintais urbanos, regionalmente conhecido como as terras queimadas (TQ). Esta prática consiste em varrer os quintais todos os dias, acumulando restos orgânicos de vegetais (folhas, galhos, sementes, cascas e resíduos domésticos) e animais (restos de peixes e ossos de galinhas e gados). Posteriormente, esse amontoado de resíduos é queimado lentamente e as cinzas e resíduos carbonizados são usados para adubar plantas no quintal. Essa pode ser uma das formas que os índios utilizavam para manejar, conservar e até mesmo criar as terras pretas, acumulando grandes quantidades de carvão pirogênico e repondo nutrientes minerais importantes, tais como N, K, P, Ca, Mg [2] etc. Porém, não se sabe ainda qual seria a melhor maneira de combinar e utilizar os conhecimentos tradicionais e as tecnologias mais modernas a fim de recriar uma terra preta de índio num período mais curto de tempo e com as mesmas características e propriedades que a TPI encontrada na Amazônia. Durante o processo de formação das TQ, as condições do solo e do clima (fatores edafoclimáticos) podem influenciar o processo de biocarbonização dos resíduos orgânicos e, consequentemente, produzir um biocarvão com diferentes características físicas, químicas e morfológicas que atuará de forma diferenciada.

Observações de campo têm mostrado que grandes quantidades de resíduos orgânicos de origem animal e vegetal passam por um processo de biocarbonização, tanto no período de inverno como no verão, produzindo biocarvão com diferentes características e propriedades.

Resultados preliminares demonstraram, no entanto, que as TQs apresentam níveis de fertilidade iguais ou superiores aos níveis de algumas TPIs. Adicionalmente, esse processo está incrementando esses solos com altos teores de macronutrientes e micronutrientes essenciais para o crescimento e produção das plantas cultivadas, contribuindo, assim, para o uso, o manejo, a conservação e até mesmo a recriação das TPIs.

A terra preta de índio, portanto, pode ser uma tecnologia de baixo custo para o manejo da fertilidade dos solos de terra firme da Amazônia, visando à recuperação de áreas degradadas, incorporando-as ao sistema produtivo regional, com o fortalecimento da agricultura familiar e, ao mesmo tempo, aumentando o estoque de carbono nos solos. 

Newton Paulo de Souza Falcão é engenheiro agrônomo e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), onde coordena as pesquisas sobre as terras pretas de índio da Amazônia Central. Contato: nfalcao@inpa.gov.br 

Referencias bibliográficas
Falcão, N. P. S.; Borges, L. F. 2006. Efeito da fertilidade de terra preta de índio da       
Amazônia Central no estado nutricional e na produtividade do mamão Hawaí (Carica papaya L.). Acta Amazônica, VOL. 36(4): 401 – 406p

Falcão, N.P.S.; Comerford, N.; Lehmann, J. 2003. Determining nutrient bioavailability of Amazonian Dark Earth soils: methodological challenges. In: Amazonian Dark Earths: Origins, Properties, Management (eds. Lehmann, J.; Kern, D.; Glaser, B.; Woods, W.), Kluwer Academic Publishers Dordrecht The Netherlands, pp. 255-270.

Kern, D. C.; Aquino, G. D’; Rodrigues, T.E.; Frazão, F.J.L.; Sombroek, W.; myers, T. P.; Neves, E.G. 2003. Distribution of Amazonian Dark Earths in the Braszilian Amazon.  In:  Lehmann, J.; Kern, D.C.; Glaser, B; Woods, W. Amazonian Darks Earths – Origin – properties – management. Chapter 4. Netherlands: Kluwer Academic Publishers.

Kern, D.C.; Kampf, N. 1989. Efeitos de antigos assentamentos indígenas na formação de solos com Terra Preta Arqueológicas na região de Oriximiná – PA. Revista Brasileira de Ciência do Solo, 13: 219-225.

Lehmann, J., Gaunt, J., Rondon, M., 2005a. Bio-char sequestration in terrestrial ecosystems - a review. Mitigation and adaptation strategies for global change.

Pabst, E. Critérios da distinção entre Terra Preta e Latossolo na região de Belterra e seus significados para a discussão pedogenética. Boletim Museu Paraense Emílio Goeldi [S.I.], v.7, n.1, p. 5-19, 1991.

Sombroek, W.; Ruivo, M. L.; Fearnside, P. M.; Glaser, B.; Lehman, J. 2003. Amazonian dark earths as carbon stores and sinks. In: Lehman, J.; Kern, D.; Glaser, B.; Woods, W. (Ed.). Amazonian dark earths – origins, properties, management. Holanda: Kluwer Academic Publishers.

Sombroek, W.G. 1966. Amazon soils. Wageningen, Center for Agricultural Publications and Documentation. (Agricultural Research Reports, 672). 292p.

Teixeira, W.G. ; Martins, G.C. Soil physical caracterization. In: LEHMANN, J.; KERN, D.C.; GLASER, B.; WOODS, W.I. (Eds.). Amazonian Dark Earths; origin, properties, managements. Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2003. p.271-286.

WinklerPrins, A.M.G.A. 2002. Linking the urban with the rural: house-lot gardens in Santarém, Pará, Brazil. Urban Ecosystems 6, 43-65.

WinklerPrins, A.M.G.A. 2009. Sweep and char and the creation of Amazonian Dark Earths in homegardens. In: Amazonian Dark Earths: Wim Sombroek’s Vision (eds. Woods, W.I., Teixeira, W., Lehmann, J., Steiner, C., WinklerPrins, A.M.G.A. & Rebellato, L.), Springer Publishers Dordrecht The Netherlands, pp. 205-211. 


[1] Os Latossolos apresentam a maior representação geográfica no Brasil em relação aos demais tipos de solos.
[2] Níquel, potássio, fósforo, cálcio e magnésio.


Fonte: Revista Pré-Univesp

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