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14 de janeiro de 2013

Memória, reflexão e texto de ribeirinho

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Publicação do jornalista e fotógrafo Maurício de Paiva, colaborador assíduo do ARQUEOTROP, para a National Geographic:



O espanhol Joan Fontcuberta, fotógrafo, professor e cientista, relacionando fotografia e suas diretrizes atuais, reflete (e eu compartilho!):
“O que me interessa questionar é todo princípio de autoridade e autentificador do valor testemunhal da fotografia. A ciência é uma das plataformas de poder, mas há outras como os meios de comunicação, e o que me interessa é criticar esses vetores. Tenho desenvolvido projetos em paleontologia, arqueologia e outros positivismos científicos. Me concentro em indagar os domínios em que a fotografia seja encarada de forma positivista. Pra mim, não há diferença entre fotografia e texto. A fotografia pode ser compreendida como texto. Texto que impõe algumas particularidades de leitura, mas que funciona da mesma maneira” – trecho de entrevista contido na tese de doutorado de Wagner Souza e Silva, Foto0/Foto 1).
Por falar em imagem como “narrativa”, acompanhei em dezembro passado um ribeirinho amazônida. Eu o conheci numa dessas situações intuitivas dentro de embarcação, deslizando o rio Amazonas e o Arapiuns, no Pará. Aproximei-me de Dorivan Brito. Ele fora – e agora dou veemência a isso! – definitivamente textual em vários momentos. Fora um bom guia, destro; amigo, companheiro, corajoso, desconfiado, filósofo, franco, marinheiro, bebedor. Ele mesmo! Dessas cabeças singulares – e fluído, que versam das coisas de tudo. Dono de muitas aspas. Alvo, moreno – indígena e parrudo. Com ar descansado e cílios caídos – porém desassossegado –, jovem, ex-agricultor de roçado de maniva (a raiz da mandioca que fora domesticada na Amazônia há cerca de 4 mil anos), briguento por moças caboclas… E hoje, precoce comandante de embarcação, marinheiro desde os 22. Sujeito idiossincrático, um alarido cultural; diz que correr pelo mundo é seu mote de vida.
Conhece cada braço de afluente, cada curva na região de Santarém, o rio Tapajós. Já foi ao Rio Grande do Sul pegar barco pela maresia do oceano. Já esteve nas Guianas, arrisca francês, inglês e portunhol com turistas alemães e canadenses, quando os rema rio adentro. Levou-me, após virar a noite na festa, à comunidade São José de Baixo (Resex Tapajós – Arapiuns), onde vive sua mãe religiosa, Dona Durvalina, filha da terra. Pressenti contumaz prazer antes mesmo de lá ficar dois dias. Durvalina se assemelha a uma pérola, artesania cultural, digna, como espelho dos antepassados…
A cabocla senhora solícita de si, mãe do caçula Dorivan, faz farinha e é também coletora de açaí e de castanha de caju – descasca, torra e faz a paçoca com o pilão. Sempre com a peconha de folha de palmeira, escalou em açaizeiros e abacabeiras pra fazer o tradicional vinho das frutas. Encantada.
Com o filho, abrandei anacronismos. Madrugada, fomos à beira do rio nos banhar. Claridão de luar, céu marinho salpicado em centelhas, silêncio amargoso e lendário, incrível solitude. Solene “Eldorado”! Um rebojo de boto n’água violeta. Um tucuxi? Prático, Dorivan expunha-me, em escolhas ecléticas zapeadas do seu smartphone, ali, com o sabão no jirau, a ideia de me passar via Bluetooth músicas antigas que me apetecessem. A meu sabor. Simples tecnologia pura, d’areia crua em rio baixo. Não me larga, escassa, essa memória ímpar.
Um dia de outro lugar, noutro tempo, sobre a sensação de foto e texto, entrei numa casa de beira que fora pura imagem, mas pus com a lapiseira: “Chegando com a noite quente e úmida, senti cheiro acre no ar e pude vislumbrar gosto do açaí fresco no quintal. Esse fruto antigo faz meu ritmo acordar. O caminho fluiu turvo e lento na noite cedo, no quebranto do motor de barco. O caboclo, silencioso e sereno, pernas de infante. Nem me lembrei de minha infância menos brilhante. No percurso cadente só recordei do atolamento na maré seca, saí pra ajudar como lesma pregada de sobrado do interior. Torvelinho. Pensei convalescente: o poder do homem canoeiro é o trabalho, paciente, poderio ligeiro e seringa. Já éramos líquidos ali. Ancorados. A família me recebeu tenra, e o clima na palafita era descanso e lamparina baixa, amarela e cálida. Crianças na rede do sono denso, varão e fiado. Mais um dia no dia do tempo, entorpecendo a boca da noite. Minha vista, meus sentidos já miravam a parede e o remo; traquitanas e bugigangas, biombo, fios acobreados e antenas tortas, Bombril na antena e tábuas dúbias. Assimetrias. Fogareiro prata. Um Cristo desalinhado e sedento pendurado como fotografia. Eram oito balanços de rede em família, de cá e lá, a TV chuviscando desembaraço. Fora não tinha vento, não vinha brisa, só palmeiras e uma parabólica. Dormitei, atabalhoado, mas parente. Cedo, barco arteiro trouxe pão e camarão.”



Veja a publicação na ítegra com mais fotos em:http://viajeaqui.abril.com.br/national-geographic/blog/mauricio-de-paiva/2013/01/09/memoria-reflexao-e-texto-de-ribeirinho/?utm_source=redesabril_viajeaqui&utm_medium=twitter&utm_campaign=redesabril_ngb

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